"O lazer na periferia é um ato de afirmação, de celebração da cultura e de empoderamento coletivo" Diz DJ Jean C, veterano do hip hop de Brasília
"O lazer na periferia é
um ato de afirmação, de celebração da cultura e de empoderamento coletivo"
Diz DJ Jean C, veterano do hip hop de Brasília
O músico fala do lazer das
periferias e como ajudou a construir a identidade de Brasília fora dos cartões
postais ao longo dos anos e porque essa história ainda pulsa nas ruas, becos e
vielas da cidade.
Brasília completa mais um
aniversário com seus monumentos, sua arquitetura e seu traçado planejado. Mas
quem cresceu fora disso sabe que a cidade sempre foi outra. Foi lá que DJ Jean
C aprendeu o que o lazer realmente significa.
"O lazer na periferia é
um espaço de resistência, de construção de identidade e de fortalecimento da
comunidade", diz Jean, que começou como DJ em Brasília ainda nos anos 80 e
é profissional desde 1997. Para ele, as festas e os shows da periferia sempre
foram muito mais do que entretenimento. "É onde as pessoas encontram um
senso de pertencimento, expressam suas realidades e criam laços que vão além dos
eventos."
Não Planejado
Quando Brasília foi
inaugurada, em 1960, o projeto urbanístico previa espaços de convivência e
lazer. Mas nas cidades-satélites que foram crescendo ao redor do Plano Piloto, a
população foi criando seus próprios espaços, sem estrutura, sem muito recurso,
mas acontecendo mesmo assim.
Jean lembra com precisão os
espaços que foram decisivos para a formação da cultura hip hop na cidade.
"O Quarentão em Ceilândia, o Conic, o Pandiá no Setor Militar Urbano, entre
quadras e os centros comunitários das cidades-satélites foram cruciais",
enumera. Alguns desses espaços não existem mais. Outros se reinventaram. Mas o
que eles produziram ficou.
Para o DJ, existe uma
diferença fundamental entre o lazer que a cidade oferece e o que a periferia
cria para si mesma. "O lazer oferecido muitas vezes vem de políticas ou de
iniciativas que nem sempre consideram as reais necessidades e a cultura
local", explica. "Já o lazer criado pela periferia é autêntico, nasce
das vivências e das necessidades da própria comunidade, com o jeito e a cara de
quem vive."
Assinatura
Foi deste lazer periférico que
nasceu uma das marcas mais reconhecíveis do rap brasileiro, o grave do hip hop
de Brasília. Jean conta que essa sonoridade própria tem endereço certo. "É
possível reconhecer o rap de Brasília pelo grave marcante, uma característica
que foi introduzida nos discos do Álibi pelo DJ Jamaika e o Rivas",
revela. "Essa assinatura sonora, aliada à diversidade cultural e a força
dos coletivos, faz com que o rap de Brasília tenha um impacto singular e ressoe
por todo o Brasil."
Grupos como o Câmbio Negro e o
Álibi foram referências que moldaram não só o estilo musical de Jean, mas toda
uma geração de artistas da cidade. Trabalhar ao lado desses nomes ao longo da
carreira só reforçou sua convicção sobre o que torna a cena candanga única.
Quatro elementos
No espaço do lazer periférico,
o hip hop sempre se manifestou de forma integrada. Pick-up, grafite, b-boy e MC
não são partes separadas da cultura, são um só organismo vivo que se funde nas
festas, nos eventos, nas ruas e no fortalecimento da comunidade hip hop.
"A música da pick-up e as
rimas dos MCs embalam os movimentos dos b-boys, enquanto o grafite colore e
conta histórias visuais da comunidade", descreve Jean. "Essa
integração cria um ambiente único, onde a arte e o lazer se juntam,
proporcionando não só entretenimento, mas um espaço de afirmação
cultural."
E essa integração, ele
garante, não ficou somente no passado. "Continua viva. Nas festas e
eventos, ainda vemos essa união de elementos, para mostrar que a cultura hip
hop e o lazer periférico segue forte e com capacidade de se reinventar com o
tempo."
Se Brasília foi planejada, a
periferia foi acontecendo, e o hip hop é o registro mais honesto dessa
história. "Através das rimas dos MCs, dos murais de grafite, das batalhas
de b-boys e do som das pick-ups, o hip hop retrata a realidade das periferias, mostra
a força, a criatividade e a resiliência de quem as constrói", afirma Jean.
As redes sociais ampliaram
esse alcance sem mudar a essência. "Hoje, é muito mais fácil divulgar
eventos, alcançar um público maior e criar comunidades em torno da
cultura", reconhece. "Os artistas agora conseguem subir suas próprias
músicas nas plataformas de streaming, o que democratiza o acesso e dá mais
autonomia para os artistas periféricos."
Legado
Hoje, Jean atua como professor
de DJ no Jovem de Expressão, na Praça do Cidadão, e acompanha de perto a Casa
do Hip Hop em Ceilândia, dois espaços que ele aponta como fundamentais para a
continuidade da cultura na cidade. Para os jovens que querem entrar na cena, o
conselho é direto, "Sejam verdadeiros, gostem do que fazem e sempre
procurem fortalecer seus próprios coletivos. Construir e fortalecer a cena em
conjunto é fundamental para encontrar um caminho melhor e mais sólido."
Para celebrar o aniversário de
Brasília, Jean C dedicaria Brasília Periferia, do GOG, uma música que,
para ele, resume bem. "Essa mensagem destaca a força e a resiliência da
periferia, que, por meio da arte e da cultura, mostra como a periferia
transforma dificuldade em criação", conclui. "É uma forma de
reconhecer o quanto a periferia construiu essa cidade, uma homenagem"
Entrevista com DJ Jean C, DJ,
produtor e professor de hip hop em Brasília desde os anos 80, e hoje na Jovem
de Expressão.
Coletivos DA BOMB E DISCO N’
FUNK.
Marcelo Cavalcanti



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