Com 26 famílias habilitadas por adolescente, DF ainda enfrenta fila de espera por adoção tardia
Apenas 1,3% das mais de 470 famílias habilitadas tem interesse em adotar adolescentes dos 15 aos 18 anos
Dois adolescentes aguardando na fila de espera da adoção / Gerado por IA De acordo com dados recentes (novembro/2025) do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), para cada um dos 18 adolescentes disponíveis para adoção, existe, em média, cerca de 26 famílias habilitadas. Porém, apenas 1,3% das famílias estão de braços abertos para a adoção tardia.
Por outro lado, cerca de 94% das famílias habilitadas estão em busca de crianças com os mesmos requisitos: até 3 anos, sem irmãos e sem nenhuma deficiência. Segundo dados do TJDFT de 2019 (o mais detalhado publicado), com base nas 137 crianças disponíveis na época, menos de 5% cumpriam os requisitos das famílias habilitadas.
Em comparação, existem 478 famílias habilitadas para apenas 98 crianças aguardando adoção (maio/2025). À primeira vista, sobram famílias; na prática, sobram adolescentes. Das 98 disponíveis para adoção, 52 têm entre 6 e 14 anos e 18 têm 15 anos ou mais. Das 98, 75 pertencem a grupos de irmãos, e apenas 28 têm até 6 anos, exatamente o grupo que concentra a quase totalidade do interesse das famílias.
Muitas vezes, as famílias têm certo preconceito em relação à adoção de adolescentes, principalmente por medo do passado, temendo históricos de abandono, negligência e violência. Além disso, há o receio de receber alguém com personalidade, caráter e pensamentos já formados, que pode questionar, resistir ou simplesmente não criar vínculo.
A busca por um perfil ideal de filho é, na maior parte dos casos, a maior barreira para a adoção tardia.
Muitos pretendentes permanecem na fila de adoção à espera do "filho ideal", que cumpra todos os requisitos impostos pelos pais adotantes.
Crescer dentro de instituições de acolhimento sabendo que a chance de adoção diminui a cada aniversário deixa os adolescentes cada vez mais apreensivos sobre o futuro que os aguarda. A instabilidade de vínculos, o trauma do abandono e a ausência de figuras parentais impactam sobretudo o desenvolvimento emocional e social.
Muitos desses adolescentes chegam a essa fase da vida com defasagem escolar, principalmente pela ausência de acompanhamento individualizado e de um ambiente emocionalmente estável para aprender e se desenvolver. Há também adolescentes que, com o tempo, simplesmente desistem de ser adotados, diante desse preconceito.
Ao completar 18 anos, esses jovens são desligados dos serviços de acolhimento. A lei permite, em casos excepcionais, a permanência até os 21 anos, mas, na prática, isso raramente acontece. Saem sem uma família de referência, sem a rede de apoio necessária e sem os ensinamentos básicos que a vida adulta exige para se manter financeiramente. Os destinos mais comuns são repúblicas jovens com vagas escassas, situação de rua ou vulnerabilidade extrema.



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