Entre o concreto e o Cerrado: a luta pela sobrevivência da fauna e flora em Brasília
Capitão Hugo Batista, chefe da seção de Operações do Grupamento de Proteção Ambiental do CBMDF (arquivo pessoal). Brasília, no coração do Cerrado, considerado o
bioma savânico mais biodiverso do mundo, abriga uma rica variedade de fauna e
flora que resiste, cada vez mais, à pressão do crescimento urbano e às ameaças
ambientais. Entre espécies típicas e paisagens únicas, o Distrito Federal vive
o desafio de equilibrar desenvolvimento e preservação.
A vegetação do Cerrado é marcada por árvores de
troncos retorcidos, gramíneas e uma enorme diversidade de plantas com potencial
medicinal e alimentício. Já na fauna, animais como o lobo-guará, o
tamanduá-bandeira e diversas aves encontram refúgio em áreas de conservação e
parques ecológicos espalhados pelo DF.
No entanto, esse patrimônio natural enfrenta
riscos crescentes. A expansão urbana tem reduzido habitats e aproximado animais
silvestres das áreas residenciais. O resultado são aparições cada vez mais
frequentes desses animais em regiões urbanizadas, muitas vezes em situação de
vulnerabilidade.
Outro fator crítico são as queimadas,
especialmente durante o período de seca. O Corpo de Bombeiros Militar do
Distrito Federal, CBMDF, atua na linha de frente no combate aos incêndios
florestais, que não apenas destroem a vegetação, mas também afetam diretamente
a sobrevivência de inúmeras espécies.
Segundo o Capitão Hugo Batista, chefe da seção de
Operações do Grupamento de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros Militar do
Distrito Federal, CBMDF, “do ponto de
vista ambiental, o principal vetor de ignição e propagação está relacionado ao
regime climático do Distrito Federal, caracterizado por um período seco
prolongado entre abril e outubro. Durante esse intervalo, observa-se baixa
precipitação, elevadas temperaturas e queda acentuada da umidade relativa do
ar, criando um ambiente altamente favorável à ocorrência de incêndios”.
Segundo a corporação, os meses mais secos do ano
concentram a maior parte das ocorrências. Além da perda de áreas verdes, o fogo
provoca a morte de animais, destrói ninhos e compromete o equilíbrio do
ecossistema.
“Foram
realizadas 13 perícias de incêndios florestais, distribuídas em regiões como
Planaltina, Paranoá, Sobradinho, Jardim Botânico e Lago Sul. As maiores
ocorrências em área queimada concentraram-se em locais como: • Área Alfa (até
354 hectares queimados); • Planaltina (região do Colégio Agrícola); • Lago Sul
(Setor de Mansões Dom Bosco). Esses dados indicam que as áreas mais afetadas
correspondem tanto a zonas rurais quanto regiões periurbanas, onde há acúmulo
de material combustível e maior incidência de ignições”, explica o Capitão.
No
contexto das unidades de conservação, destaca-se a ocorrência relevante na
Floresta Nacional de Brasília, FLONA. Com incêndio que atingiu 112 hectares,
demonstrando a vulnerabilidade de áreas protegidas. Assim, observa-se que o
padrão espacial dos incêndios no Cerrado brasiliense está associado à
combinação entre: pressão antrópica, características da vegetação e condições
climáticas locais, conclui o Capitão da corporação.
Do ponto de vista da
flora, a recorrência de incêndios durante o período crítico de estiagem
compromete a estrutura da vegetação. O relatório evidencia que o ambiente seco,
aliado às altas temperaturas e baixa umidade, favorece incêndios de maior
intensidade e extensão, resultando em grandes áreas queimadas, como demonstrado
pelas ocorrências superiores a 300 hectares.
Essa dinâmica implica:
perda de cobertura vegetal, degradação do solo e comprometimento da regeneração
natural, especialmente quando os incêndios são frequentes.
O Capitão alerta que “a ocorrência de incêndios em áreas como a
FLONA reforça que nem mesmo áreas protegidas estão imunes, sendo afetadas por
fatores externos e condições climáticas severas. Adicionalmente, os impactos
extrapolam o meio natural, atingindo a sociedade por meio de degradação da
qualidade do ar, aumento de riscos à saúde pública e necessidade de mobilização
intensiva de recursos operacionais”.
Os incêndios extensos
registrados na FLONA e no Parque Nacional de Brasília constituem exemplos
paradigmáticos da complexidade do combate a incêndios florestais no Cerrado.
Enquanto a FLONA evidencia os efeitos devastadores da propagação descontrolada
do fogo, com comprometimento de grande parte da unidade, o caso do PNB
demonstra que a atuação rápida, coordenada e tecnicamente estruturada pode
reduzir significativamente os danos ambientais, mesmo diante de eventos de
grande escala.
Dessa forma, os dados
analisados reforçam a necessidade de fortalecimento contínuo das ações da
Operação Verde Vivo, especialmente no que se refere à prevenção, ao
monitoramento e à resposta imediata em áreas ambientalmente sensíveis,
garantindo a proteção do bioma Cerrado e de suas unidades de conservação
estratégicas.
A Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal,
SEMA, por meio da sua Assessoria de Comunicação, ASCOM, afirma que tem
intensificado ações de monitoramento e prevenção. Entre as iniciativas estão o
uso de tecnologias para detectar focos de incêndio, campanhas de
conscientização e projetos de recuperação de áreas degradadas. A Secretaria informa
também que os principais desafios ambientais hoje são: A crise climática, o desordenamento
territorial, a perda de habitats e da biodiversidade e a geração de resíduos no
planeta.
Questionada sobre
projetos de recuperação de áreas degradadas, a assessoria de comunicação
informou que o Instituto Brasília Ambiental e a Secretaria de
Agricultura do Distrito Federal, Seagri-DF, firmaram um Acordo de Cooperação
Técnica com foco na regularização ambiental de pequenas propriedades rurais no
território brasiliense. A iniciativa, que terá duração de 51 meses, busca
reforçar a implementação do Programa de Regularização Ambiental, PRA, e
recuperar aproximadamente 38 mil hectares de áreas protegidas, conforme dados
declarados no Cadastro Ambiental
Rural, CAR. https://www.ibram.df.gov.br/w/governo-do-df-firma-acordo-para-regularizar-propriedades-rurais-e-recuperar-areas-degradadas
O projeto Recupera Cerrado II, com execução em 18 meses com
investimento de R$3,8 milhões, recursos resultantes de compensação florestal
vinculada ao Funam. Com essas iniciativas, o Governo do Distrito Federal já
acompanha mais de 307 hectares de Cerrado em processo de recomposição desde
2019. https://www.sema.df.gov.br/w/edital-de-r-38-milhoes-preve-manutencao-e-monitoramento-de-areas-em-recuperacao-no-cerrado.
O projeto se encontra na fase final para assinatura dos documentos que
possibilitam seu início de execução.
A Instrução normativa N°32/2020 publicada pelo Instituto Brasília
Ambiental:
●
Estabelece o Rito Processual para a Autorização
de Supressão de Vegetação, Compensação Florestal e dá outras providências.
Dessa forma, existem Termos de Compensação Florestal assinados junto ao
Instituto Brasília Ambiental voltados à recuperação/recomposição e reabilitação
de áreas, carecendo de consulta formal ao órgão para mais informações.
De acordo com o
órgão, a participação da população é essencial para a preservação do Cerrado.
Denúncias de queimadas ilegais, respeito às áreas de proteção e o cuidado com o
descarte de resíduos são medidas fundamentais para reduzir os impactos
ambientais.
Orientamos
a população a participar de audiências e consultas públicas,
especialmente sobre novos licenciamentos de atividades potencialmente
poluidoras e criação de unidades de conversação; informando-se mais sobre a
legislação ambiental, a organização, o papel dos órgãos ambientais na
administração pública, para direcionar melhor as demandas; informando-se mais
sobre preservação e conservação ambiental e saúde única.
Apesar dos desafios, Brasília ainda mantém
importantes áreas preservadas que garantem a sobrevivência de parte
significativa da biodiversidade do Cerrado. A manutenção desse equilíbrio, no
entanto, depende de políticas públicas eficazes e do engajamento coletivo.
Em meio ao crescimento da capital, a preservação
da fauna e da flora não é apenas uma questão ambiental, mas também um
compromisso com o futuro.
Por Anaiara Reges Ribeiro e João Felipe Reges Vieira.



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