Violência de gênero e racial na imprensa: como os preconceitos estruturais prejudicam a vida profissional das mulheres negras.
Foto: Sindicato dos Jornalistas Jacira Santos, 74, primeira mulher negra a assumir a presidência do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJDF), é formada em jornalismo e amplamente reconhecida por seus trabalhos e por sua atuação no movimento negro. Entretanto, ela conta que a trajetória até chegar a essa posição foi árdua e repleta de dificuldades decorrentes do racismo e do machismo no ambiente de trabalho.
Apesar dos obstáculos enfrentados, Jacira afirma que sua identificação com o movimento negro a ajudou a se compreender dentro da área jornalística. “A questão racial me abriu o mundo para primeiro saber quem eu sou, conhecer toda a nossa história e entender esse processo excludente, além de estar nesse curso que é para poucos.”
A Federação Nacional dos Jornalistas aponta que, embora cerca de 40% dos jornalistas sejam mulheres, apenas 21% ocupam cargos de editoria de prestígio no Brasil. Jacira também relata que, muitas vezes, sente-se menos respeitada por ser uma mulher negra.
Quando se tornou repórter do Correio Braziliense, considerou a conquista como a realização de um sonho, sobretudo diante das adversidades derivadas da discriminação. No entanto, o ambiente de trabalho também apresentou desafios marcados por viés preconceituoso. “Eu perguntei ao editor: ‘Por que, quando estou nos plantões, eu vou ver se o sino da catedral chegou? Uma matéria fria que não rende nada’. Então fui me empoderando diante dessa postura discriminatória.”
“A informação é uma questão de direito humano, essa informação tem que ser plural para ser democrática. Ela tem que ser ouvida de todos os lados” acrescentou.
A jornalista também reflete sobre a segurança da mulher no ambiente de trabalho. Durante a entrevista, afirmou que foi vítima de assédio moral por parte de um colega que, em determinado dia, a perseguiu em uma sala. “Ele foi me dizendo: ‘Vem aqui, mais próxima’. Eu o questionei perguntando por quê, mas ele continuou pedindo que eu me aproximasse. Tinha uma mesa de vidro entre nós, e eu fiquei rodando por ela enquanto ele falava. Entrei em desespero e saí correndo. Quando cheguei esbaforida na revisão e me perguntaram o que havia acontecido, respondi: ‘nada’”, relembra.
“Você sente vergonha de dizer que foi importunada”, ela afirma em relação a situação “Fui para o outro dia fingindo que não havia ocorrido nada. Não satisfeito ele fez outra vez.” acrescenta.
Jacira ressalta a importância do papel dos sindicatos no combate ao assédio, destacando a necessidade do anonimato para a proteção da vítima. Segundo ela, a dificuldade em denunciar esse tipo de agressão pode ser ainda maior quando o agressor ocupa uma posição de superioridade profissional. O Sindicato dos Jornalistas possui uma publicação voltada à conscientização e ao apoio a vítimas de assédio no ambiente de trabalho.
“Precisamos de profissionais comprometidos em ser um interlocutor em nome da sociedade justa e igualitária” , declarou sobre a função do jornalismo no combate à violência de gênero. “A imprensa deve cumprir seu papel de divulgar e denunciar esses casos, para que a gente não seja só estatística. E que essas agressões e violências que a gente sofre se reduzam para que a sociedade se torne o ideal para todos nós.” conclui Jacira.
Por: Isabel Villela e Rafael de Paula



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