A SOBRECARGA INVISÍVEL DAS MÃES SOLO ATÍPICAS NO BRASIL
Por Anaiara Reges Ribeiro e João Felipe Reges Vieira.
A semana do Dia Internacional da Mulher convida à reflexão sobre as múltiplas realidades femininas no país. Entre elas, destaca-se a das mães que criam os filhos sozinhas — um fenômeno crescente que revela desafios sociais, econômicos e emocionais cada vez mais complexos.
Em 2025, o Brasil registrou cerca de 172 mil crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento, o equivalente a 6,9% dos registros, segundo dados dos cartórios. É o segundo maior percentual de abandono paterno da última década, mantendo estabilidade em relação a 2024 e ficando atrás apenas de 2023, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. São os chamados “órfãos de pais vivos”.
Quando se observa a realidade de mães de filhos neurodivergentes, o cenário se torna ainda mais delicado. Relatos frequentes indicam que parte dessas mulheres é abandonada após o diagnóstico dos filhos, ampliando uma estatística silenciosa e intensificando a sobrecarga materna.
Foi nesse contexto que Maria Caroline Passarinho Chaves, enfermeira, 48 anos, percebeu ainda cedo que a filha apresentava comportamentos diferentes das demais crianças. Sem informações claras e diante de muitas dúvidas, buscou caminhos para ajudá-la. A separação do pai da menina, quando a filha tinha 10 anos, foi dolorosa, mas também marcou um recomeço para as duas.
Com o apoio essencial da própria mãe, elas enfrentaram preconceitos, desinformação e os desafios cotidianos da maternidade. Anos depois, veio o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante o processo de compreensão, Maria Caroline também se reconheceu dentro do espectro e recebeu o mesmo diagnóstico.
Hoje, mãe e filha seguem independentes, fortalecidas e mais conscientes. A trajetória representa não apenas superação pessoal, mas também a quebra de estigmas históricos que cercam a neurodivergência.
A rotina de uma mãe solo já envolve responsabilidades intensas: sustentar o lar, acompanhar a vida escolar dos filhos e oferecer suporte emocional constante. Muitas ainda enfrentam batalhas judiciais em busca da pensão alimentícia para os filhos que na maioria das vezes é insuficiente para cobrir despesas básicas.
Quando o filho é atípico, a rotina se torna ainda mais exigente. Além de pediatras, a agenda inclui neuropediatras, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais, somados a atividades complementares, medicações rigorosas e reuniões escolares frequentes.
A necessidade de acompanhar terapias e consultas dificulta a permanência em empregos formais. Empreendedorismo e trabalho informal tornam-se alternativas para garantir flexibilidade, muitas vezes à custa de estabilidade financeira e direitos trabalhistas.
Sem carteira assinada, diversas mães ficam à margem de benefícios e programas sociais, ampliando a vulnerabilidade econômica dessas famílias.
Em meio a tantas responsabilidades, surge a solidão materna atípica — um isolamento profundo vivido por mulheres que, apesar das dificuldades, mantêm sonhos de crescimento profissional, estabilidade e relações afetivas saudáveis.
Diante desse cenário, a união entre mães e a construção de redes de apoio têm se mostrado caminhos fundamentais para reduzir o isolamento e fortalecer mulheres que transformam desafios em resistência e cuidado.
Segundo a psicóloga Emanuelle Vieira Leal, pós-graduada em educação inclusiva, Neuropsicologia, Intervenção em ABA para autistas e deficientes intelectuais e pós-graduanda em Gestão em saúde, coordenadora da Reabilitação Intelectual Infantil do Centro de Educação Auditiva e Linguagem Ludovico Pavoni, CEAL/LP - instituição beneficente, sem fins lucrativos, que atua em Brasília há mais de 50 anos, o suporte às famílias é parte essencial do processo terapêutico.

A instituição desenvolve ações sistemáticas de orientação e acolhimento para pais e responsáveis, com oficinas de capacitação, tais como: oficinas de costura criativa, artesanato, oficina de matemática e português, preparatório para o mercado de trabalho.
O objetivo é fortalecer o protagonismo familiar na reabilitação, ampliar a adesão aos tratamentos e contribuir para ambientes mais inclusivos ao desenvolvimento de crianças e adolescentes atendidos.



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