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Brasília,12/05/2026

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    A mulher que a rua não vê: dor do silêncio e invisibilidade

    Por Marcelo Cavalcanti

                                                                                 A mulher que a rua não vê 

    Entre as fissuras familiares, vícios e solidão. Mônica carrega com ela a maquiagem e a barra de ferro, objetos de funções distintas para sobreviver as ruas e seus perigos. 

    Mônica de 43 anos, nasceu na Ceilândia Norte e costuma se maquiar antes de sair pelas ruas do Setor Comercial Sul, no Plano Piloto. O batom não é vaidade superficial, é uma afirmação de que ainda existe uma mulher ali, dentro do casaco surrado, dentro da dor. Na bolsa, juntamente, há uma barra de ferro. "É pra me defender", diz ela, sem precisar explicar de quem. As mulheres em situação de rua sabem exatamente do que se trata. 

    A história de Mônica, começa onde tantas outras se encontramno silêncio de uma casa esvaziada dos filhos. A depressão chegou primeiro. Depois vieram as drogas e o álcool, como se elas pudessem preencher o que a saudade havia deixado. "Uso pra aliviar a dor no peito", ela confessa, com a objetividade de quem já cansou de se julgar. 

    O caso de Mônica não é isolado. No Brasil, a população feminina em situação de rua cresce, subnotificada, desassistida e frequentemente invisível até para as políticas públicas pensadas para protegê-la.  

    Ninguém escolhe este caminho 

    "A ida para as ruas raramente é ocasionada por um fator isolado", explica o psicólogo Udson França. Segundo ele, o processo é quase sempre uma junção de ruptura de vínculos familiares, transtornos mentais não tratados, traumas acumulados, violência doméstica e dificuldade de lidar com emoções intensas. É um colapso em câmera lenta, e invisível para quem está de fora. 

    No caso de Mônica, o gatilho foi a separação dos filhos e dos netos. A depressão que se instalou não encontrou suporte, nem familiar, nem institucional. Hoje ela conta que fugiu do CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial que deveria ser sua rede de apoio. A fuga do cuidado é um sintoma do adoecimento. 

    "Sinto muita saudade da família", ela diz. E então emenda, quase sem pausa: "Mas tenho medo de homem.". Mônica quer afeto e teme quem mais costuma oferecê-lo com violência. As tentativas de abuso sexual que ela relata, “diversas”, moldaram uma desconfiança que convive com o desejo de "achar um bom companheiro". É o paradoxo cruel de quem aprendeu a associar intimidade com perigo. 

    Mente em modo de sobrevivência 

    A rua não é apenas um lugar físico. Para o psicólogo, ela é um estado permanente de alerta. "Viver em situação de vulnerabilidade te leva a um lugar de exposição extrema", afirma. Descreve o que a psicologia chama de hipervigilância constante: o cérebro preso em modo de "luta ou fuga", gerando um esgotamento cognitivo progressivo e silencioso. 

    Medo, insegurança, solidão e preconceito, são as camadas que se acumulam sobre uma pessoa que vive nas calçadas. "O estresse das ruas está presente a todo tempo", alerta. O resultado é um organismo que não descansa, uma mente que não processa, um ser humano que vai se apagando enquanto permanece visível apenas como problema. 

    Mônica carrega esse esgotamento no corpo. Ela fala em ter "raiva da vida", em não querer mais viver e que ‘’tem vontade de fazer besteira’’ mas hesita diante do medo de ser presa. A vontade de morrer coexiste com o instinto de sobreviver, e essa tensão, segundo especialista em saúde mental, é característica do sofrimento psíquico grave não tratado. 

    O corpo também pede socorro 

    A fome não é apenas sofrimento físico. O especialista explica que, sem nutrientes básicos, o cérebro perde a capacidade de produzir neurotransmissores para a estabilidade do humor, como a serotonina. A privação alimentar instala um estresse crônico que compromete diretamente o controle de impulsos e a tomada de decisões, tornando mais difícil para a pessoa acessar os recursos que ela precisaria para sair dessa condição. 

    É uma armadilha sistêmica: a fome piora a saúde mental, a saúde mental deteriorada dificulta a busca por alimentação e cuidado, e o ciclo se repete. Para mulheres como Mônica, que além disso enfrentam o risco constante de violência e a ausência de espaços seguros, o quadro é mais grave. 

    O vício como anestesia e como prisão 

    "A dependência química não é a única causa do sofrimento psíquico, porém constitui um fator relevante", pondera Udson França. Ele descreve o mecanismo com precisão clínica: o uso de substâncias pode surgir como tentativa de lidar com o sofrimento psicológico preexistente, mas acaba agravando os sintomas mentais, criando um ciclo difícil de romper. 

     




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