"As mulheres não podem errar como os outros erram": jogadora de futebol expõe o machismo que ainda persiste no esporte.
A atleta de futebol feminino, que começou sua carreira no esporte aos 15 anos, construiu sua vida profissional baseada em recomeços, mudanças e desafios. Ao compartilhar sua história em entrevista na última sexta (07/03), ela relata que desde o começo de sua trajetória, precisou lidar com os comentários machistas, racistas e a falta de oportunidade por ser uma atleta mulher e negra no meio futebolístico.
Em uma conversa repleta de emoção e nostalgia, ela partilhou que todas as atletas que tanto fantasiam sobre atingir o patamar mais alto de suas carreiras possuem as expectativas frustradas ao encararem o maior desafio de sua profissão: o machismo. Ela ainda diz que por ser mulher e negra, suas dificuldades alcançaram um nível maior do que o esperado, pois sempre precisou lidar com comentários ofensivos dirigidos a ela, apenas pelo seu sexo e tom de pele, algo muito mais recorrente na vida de cada uma das atletas que possuem a vontade de apenas jogar futebol.
“Você tem as suas ações invalidadas ou menosprezadas apenas pela sua cor ou apenas pelo seu sexo e isso faz você repensar. Você pode ser a melhor do mundo, você pode estar em qualquer patamar que as pessoas ainda vão te enxergar com um olhar de inferior por conta do seu sexo ou por conta da sua cor. Então a vontade que dá é de não querer jogar mais, de perder a vontade de voltar pra campo.” ela relata.
Ela conta que acredita que um dia o machismo e racismo em campo irá acabar, mas que primeiro é preciso que passem a existir medidas severas de punição, pois os casos caem no esquecimento, mesmo com os clubes tomando as atitudes certas de denunciar, de postar declarações, mas a justiça fecha os olhos. Ainda divide que acredita que exista uma maneira de diminuir os comentários e atitudes ofensivas que tanto desanimam as atletas e os motivos de o futebol feminino não possuir tanta audiência, porém carregar o grande fardo do preconceito.
“O futebol feminino é um jogo mais lento, como o futebol masculino já foi um dia, e as pessoas chegam esperando um jogo que não é. E eu acho que tem soluções. Essa opinião minha não sei se é tão popular assim, mas eu acho que mudar as medidas do gol, medidas para tornar o esporte mais justo. Porque a gente vê isso no vôlei. A rede não é igual. Os homens são mais altos, a rede é mais alta, as mulheres são mais baixas, a rede é mais baixa. Então, se o futebol feminino fizesse uma análise científica pra saber as mudanças que seriam justas pro futebol, pro esporte virar algo mais dinâmico. Eu acho que o jogo seria mais dinâmico e isso faria um que o público gostasse um pouco mais, que o público olhasse mais, que o público valorizasse mais.” ela afirma.
Segundo a atleta, quando decidiu dar voz a sua vontade de ser goleira, ela realmente sentiu na pele o que as jogadoras em sua televisão reportavam, a falta de apoio. Ela relata que ouvia que tal carreira não dava futuro, que seria melhor deixar o sonho para “Plano B” e focar em algo que pudesse dar um futuro estável a ela, porém escolheu não dar ouvidos aos comentários e seguir em frente apenas com sua coragem e força de vontade e assim, mostrando que podia dar certo, começou a receber o apoio que tanto almejava.
Ela compartilha que ser atleta de futebol é algo muito desafiador e uma das experiências mais comuns e marcantes entre as mulheres que desejam trilhar sua trajetória no futebol e difíceis é sair de casa sozinhas, e se mudar para outra cidade em uma casa cheia de desconhecidas que irão jogar com você. Ela contou que todas chegam lá com uma animação genuína e a vontade de tornar o sonho realidade, porém passam por dificuldades de convivência, uma vez que não há uma supervisão de um responsável, e muitas dificuldades alimentares, pois os clubes não fornecem alimento e quando fornecem, muitas vezes não é o que elas precisam comer de acordo com a dieta. Assim, ela divide que muitas desistem do sonho ou voltam para casa e decidem recomeçar do zero, como foi o caso dela.
A atleta ainda fez um apelo ao pedir que as mulheres se imponham e não tenham medo de denunciar comentários, comentaristas, narradores e árbitros, pois só assim a narrativa do futebol feminino pode ser transformada. Ela ainda deixa um pequeno incentivo para aquelas que desejam iniciar a carreira no futebol.
“Independente das propostas que você receber, independente de onde você chegar, entenda que você já é muito corajosa por estar jogando aqui e você já é uma vencedora por escolher essa profissão. E se você escolher faça com coração. Não pense no valor do que você vai ganhar, não faça escolhas pensando no seu bolso, e sim, no seu sonho. É um sonho de todas as meninas e você representa muito as meninas, então, eu acho que é pra você jogar feliz e não ficar se prendendo as coisas que podem acontecer com você, nos comentários, de muitos que você vai sofrer. E pensar que só de você estar jogando, você já está sendo, já tá representando muita gente, já tá sendo um exemplo pra muita gente” finaliza.
Por: Duda Barreto




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